Olá amigos,

Agora que já falamos um pouco de como a idéia surgiu, vamos falar duma etapa que quase nunca aparece, mesmo nos making-off’s que vemos por aí.

Tanto eu quanto o pessoal da banda e a gravadora, ficamos bem entusiasmados em estarmos produzindo um “road-clipe”. Queríamos colocar o máximo de cenas legais que pudéssemos. Pensamos em cachoeiras, rafting, ela fazendo uma tattoo, roubando uma fruta duma barraquinha, etc, etc, etc.

O problema é que no papel tudo funciona. Mas quando se começa a planejar a filmagem vão aparecendo os problemas de produção e também de direção.

Um dos principais trabalhos do diretor é entender como cada cena vai colaborar no entendimento da história, qual a real importância dela, como ela leva pra próxima sequência, daí por diante. A partir daí, você começa a escolher o que realmente valerá a pena se fazer, gastando o tempo da filmagem (que sempre, sempre, sempre é curto). Essa é a hora em que colocamos o roteiro à prova. Não adianta nada a idéia ser maravilhosa no papel, se não funcionar na hora que colocarmos uma câmera na frente, certo?

É um processo dolorido, porque muitas vezes você abre mão de cenas que seriam deliciosas de se filmar, “apenas” porque não se tem verba, ou porque ela não “ajuda a contar a história principal”. Nesse projeto (que não era só o clipe, mas tinha a mini-série também) a coisa complicou mais ainda, porque as cenas não só tinham que fazer o mínimo de sentido no clipe, mas principalmente, tinham que funcionar na história toda, que seria explicada depois. Ex: Muita gente percebeu que a mochila da Julia “sumiu” depois que ela acordou nos entulhos à beira da estrada. Mas só explicamos que ela foi assaltada durante à noite, no quinto capítulo (depois do capítulo do tombo de skate).

Nos videoclipes, acho que a melhor forma de se começar esse entendimento da importância de cada cena é cronometrando a música. Assim, montamos uma tabela que mostra o tempo da música, a ação pensada e o que a letra da música está falando. A cara é mais ou menos essa :

nx - decupagem por tempo

Foi nesse processo, por exemplo, que percebemos que não “caberia” no clipe, que a Júlia viajasse por mais dias. A idéia inicial era que ela dormisse 3 noites na estrada, antes do acidente. Cronometrando as ações, vimos que mesmo as 2 noites, como ficou na versão final, já seria uma tarefa complicada. Muita coisa acontecendo em pouco tempo de música. (E nessa, um monte de cenas divertidas foram cortadas ! ☹)

Então, continuando esse processo de “entendimento” usamos outro recurso : o animatic. Quase todo mundo filma usando o “story board” (aqueles quadrinhos desenhados à mão, que representam as cenas), mas quando se faz um clipe convencional, a edição TEM QUE respeitar a música. Se você não planejar a filmagem em função disso, terá sérios problemas na edição (e provavelmente no resultado final). No “animatic” colocamos cada “desenhinho” em cima da música, no tempo que esperamos que a cena demorará no clipe. (o animatic é um processo que vem da animação. Se vocês olharem os making-off’s de qualquer longa da PIXAR, verão que eles fazem isso pra planejar todos o filmes). O legal disso, é que você acaba sendo obrigado a levar o story board muito mais à sério. Ele vira um planejamento de filmagem mesmo, mostrando o tempo real de cada cena. O chato é que dá muito mais trabalho. ☺ O story board do “Daqui Pra Frente” teve 102 quadros desenhados.

Eu e o Marco Donida (ilustrador – http://www.marcodonida.com/) passamos mais de 14 horas pensando e desenhando isso tudo. Como já tinham sido feitas as pesquisas de locação, foi bem bacana porque pudemos desenhar o story bem próximo do que iríamos filmar depois.

Depois disso, com a ajuda do assistente de direção Marcelo Toledo, escaneamos (juro que tem no dicionário!) tudo e eu fui colocando em cima da música pra ver como (e se) funcionava. O animatic final ficou assim:

Acho que dá pra ver o quanto o animatic pode ajudar a equipe, banda e atores a entenderem como o clipe vai funcionar, não é?

Vocês vão reparar que em muitas cenas, ele “bate” exatamente com o clipe. Outras, nem tanto, afinal de contas todos esses recursos, servem apenas de guia, não como dogmas. A idéia é que tudo isso ajude tanto o diretor quanto à produção a tomarem todas as decisões críticas antes da filmagem. Porque aí, depois, vem outra tarefa bem complicada (e bem divertida) que é fazer tudo isso acontecer de verdade. Se você deixar pra decidir tudo na hora da filmagem, estará criando o cenário perfeito para uma catástrofe. ☺

Fiz questão de falar disso tudo, embora seja um papo um pouco técnico demais, porque, pra mim particularmente, esse momento de desenhar o story board é a hora que o clipe “nasce”. É o momento mais “íntimo” do diretor com o trabalho. Depois que o story board está pronto (quando feito com esse cuidado), as decisões criativas foram tomadas, e aí é a hora dos outros parceiros (fotógrafo, produtores, atores, banda, assistentes, equipe técnica, editor e por aí vai), colocarem a contribuição e o esforço deles em cada etapa. E o diretor, se for esperto, só não atrapalha. hehe

Abraços e até o próximo!